Intimidante rosto

Porque todos esses homossexuais continuam chupando meu galo?

2020.08.18 22:48 gdtn3 Porque todos esses homossexuais continuam chupando meu galo?

Olha, eu não sou uma pessoa odiosa nem nada - acredito que todos devemos viver e deixar viver. Mas, ultimamente, tenho tido um problema real com esses homossexuais. Você vê, quase onde quer que eu vá atualmente, um deles se aproxima de mim e começa a chupar meu galo. Pegue o último domingo, por exemplo, quando casualmente puxei conversa com esse cara no vestiário do clube de saúde. Nada frutado, apenas alguns caras falando sobre suas rotinas de treino enquanto tomam um bom banho quente. O cara também parecia um homem de verdade - bíceps grandes, coxas carnudas, pescoço grosso. Ele não parecia nem um pouco gay. Pelo menos não até ele começar a chupar meu galo, claro.
De onde esse bicho tem coragem de chupar meu galo? Eu parecia gay para ele? Eu estava usando um boá de penas rosa sem perceber? Não me lembro da frase "Chupe meu galo" entrando na conversa, e não tenho uma placa no pescoço que diga: "Por favor, seus homossexuais, chupem meu galo". Não tenho nada contra os homossexuais. Deixe que eles sejam livres para fazer suas coisas alegres em paz, eu digo. Mas quando eles começam a chupar meu galo, eu tenho um problema real.
Então houve uma vez em que eu estava caminhando pela floresta e me deparei com um homem loiro de aparência robusta em seus trinta e poucos anos. Ele parecia bastante direto para mim enquanto estávamos nos banhando naquele riacho da montanha, mas, antes que você perceba, ele está chupando meu galo! O que há com esses homos? Eles não podem controlar seus impulsos sexuais? Não há galos gays suficientes lá para eles chuparem sem que eles tenham que atacar pessoas normais como eu?
Acredite em mim, não tenho interesse em ter meu galo sugado por alguma bicha. Mas tente dizer isso para o cara no clube de praia. Ou aquele da locadora. Ou aquele que cuidou do meu casamento. Ou qualquer um dos incontáveis ​​outros homossexuais que me procuraram recentemente. Todos eles sugaram meu galo, e não havia nada que eu pudesse fazer para detê-los. Eu te digo, quando um homossexual está chupando seu galo, muitos pensamentos estranhos passam pela sua cabeça: Como diabos isso aconteceu? De onde essa fada tirou a ideia de que eu era gay? E onde ele conseguiu essas botas fantásticas?
Em outras ocasiões, também estraga sua cabeça. Cada vez que um homem passa por mim na rua, tenho medo que ele vá me agarrar e me arrastar para algum banheiro para chupar meu galo. Eu até comecei a visualizar esses episódios repulsivos de chupar galo durante as relações conjugais saudáveis ​​e heterossexuais que eu tenho com minha esposa - mesmo algumas que não aconteceram de verdade, como o encontro suado no vestiário após o jogo com Vancouver Canucks. Mark Messier, em quem não consigo parar de pensar. As coisas poderiam ser piores, suponho. Podem ser mulheres tentando chupar meu galo, o que seria adultério e me faria sentir tremendamente culpado. Do jeito que está, estou apenas com raiva e enjoado. Mas, acredite em mim, isso é o suficiente. Não sei o que faz esses homossexuais me confundirem com um cara que quer seu galosucked e, francamente, não quero saber. Eu só queria que houvesse alguma maneira de fazê-los parar.
Já tentei todo tipo de coisa, mas não adiantou. Alguns meses atrás, comecei a usar uma tanga de couro preta de aparência intimidante com tachas de metal ameaçadoras na esperança de assustar aqueles viados, mas não funcionou. Na verdade, parecia apenas encorajá-los. Então, eu realmente comecei a ficar áspero, batendo neles sempre que eles estavam chupando meu galo, mas isso falhou também. Até mesmo puxar para fora de suas bocas pouco antes da ejaculação e lançar esperma por todo o rosto, peito e cabelo parecia não ter efeito. O que devo fazer para transmitir a mensagem a esses swish? Eu juro, se esses homossexuais não entenderem e pararem de chupar meu pau o tempo todo, terei que recorrer a medidas drásticas - como talvez prendê-los no chão de cimento da doca de carga com meus poderosos antebraços e trabalhando meu galo todo o caminho até sua bunda para que eles entendam alto e bom som o quanto eu desaprovo seus avanços indesejáveis. Quero dizer, você não pode ser muito mais direto do que isso.
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2019.07.30 14:44 gabpac Tocando Govinda em Hebraico [A segunda impressão é a que toca]

Esse negócio de primeira impressão não ocupava demais a cabeça de Gili. Era uma daquelas opiniões, daquelas coisas tão à flor da pele que ele preferia ignorar, e nunca levava muito à sério quando conhecia alguém. Era também por isso que ele detestava blind dates.
Vou coisíssima nenhuma!
Não foi, é claro, o que o Gili disse, mas foi o que teve vontade de dizer para o Sussia, que fumava sentado na única mesa do quiosque. Contido, no fim só respondeu:
- Pode ser.
Pois a primeira impressão que Gili passava era intimidante. Tinha trinta e oito anos, um metro e noventa e cento e quarenta quilos. Era quase completamente careca, o resto do cabelo, raspado. Mas tinha olhos azuis calmos, serenos, um rosto agradável, e uma boca sem lábios que davam a sensação de estarem sempre tentando segurar um sorriso irônico. Era o dono de um quiosque na rua Bograshov, em Tel-Aviv, a uma quadra da praia. Ali trabalhava seis vezes por semana já há onze anos. Morava perto, a duas quadras dali, num apartamento de quarto e sala onde guardava suas guitarras e que dividia com seu vira-latas que ia com ele para todo lado. Gili ia deslizando com seu skate long-board pelas ciclovias de Tel-Aviv, e Muttley, arrastando sua língua pendurada no lado da boca, correndo contente ao lado dele.
O Sussia era um velho marrom, curvado, de nariz bulboso numa cara chupada. Aparecia no quiosque todas as manhãs para tomar café turco, fumar um ou dois cigarros, preencher um cartão da loto e contar intermináveis histórias que não tinham nem começo e nem fim.
Teve uma manhã dessas que Sussia veio falando de uma moça. Ela, que já andava cansada de estar solteira, reclamava que os homens de verdade nunca cruzavam com ela pelas vielas da vida. Pois eu sei de um homem de verdade! Sussia disse para a filha da amiga.
- E daí eu dei teu telefone para ela.
Gili não teve nenhuma reação perceptível quando o Sussia disse aquilo. Seguiu repondo o estoque de cigarros com seus enormes braços, cobertos de tatuagem, sem pressa de dizer nada. Só quando terminou de esvaziar seu último caixote é que respondeu à pergunta que nunca foi feita.
- Pode ser.
- É boa moça, Gili. Você já está solteiro há quanto? Dois? Três anos? No meu tempo eu não ficava sozinho nem por uma semana. Nada disso, habibi! Eu saia por Holon, Bat-Yam, às vezes Yaffo e Tel-Aviv. E nem era como é hoje, que, bem... as moças na minha época… Era complicado. Eu não consigo entender como é que você fica assim, sozinho. Cada moça bonita que passa por aqui, todos os dias, o dia inteiro. Vão e vêm da praia. Se eu fosse jovem… É… Bem, a Ayelet é uma moça muito boa. Eu acho que você vai gostar dela. Quem sabe se você se vestisse melhor? Ao invés de usar essas camisetas largas, esse tênis velho, todos os dias. Você não morre de calor? Eu ia morrer de calor com essa calça pesada. Bem, está na minha hora. Melhor eu ir indo.
Sussia se levantou da cadeira de plástico, foi até o caixa levando o copinho cheio de borra de café no fundo e a cartela da loto preenchida para pagar.
- Dez shekalim. - Disse Gili.
Sussia enfiou os dedos magros no bolso da calça frouxa e tirou dali uma moeda. Enquanto fazia isso, disse, equilibrando o cigarro na boca:
- Se ela te mandar uma mensagem, você responda, viu?
- Pode ser.
- Yalla! Tenha um bom dia!
- Você também, Moshe.
Moshe Sussia, antes de ir embora, ainda acendeu o cigarro na frente do quiosque, ao lado do estande de revistas. Gili botou o copo sujo numa pilha debaixo do caixa e seguiu seu trabalho.
Muttley ia com o dono também para o trabalho e, de manhã cedo, ao chegar, se enroscava na calçada, na frente do quiosque. O calorão vinha logo e aí ele se refugiava do lado de dentro, atrás do balcão apertado para aproveitar o ar-condicionado forte.
Ao longo da manhã Gili manteve a cabeça ocupada com o movimento no quiosque. Começava bem cedo de manhã com os habituais do bairro e passava aos poucos a ser ocupado pelos transeuntes acidentais que iam aparecendo mais tarde. Tinha gente que ia a caminho da praia que preferia comprar sua bebida ali; mais barata e mais gelada. Gente que estacionava na esquina e vinha comprar um cigarro, rapidinho. Algum distraído que deixou o leite acabar e precisava de uma caixa com urgência. Crianças comprando picolé, o avô comprando jornal. Apareceu um rapaz nervoso que pediu um espresso e sentou-se ali a ler um jornal para fazer hora e se foi. Uma senhora que morava no edifício acima tinha um molho de chaves reserva guardado com Gili. Ela pareceu ali pedindo as chaves, desculpou-se pela trapalhada, comprou sua revista mensal e voltou a seus afazeres depois de reclamar de novo do calor.
Pouco mais tarde apareceu o Tomer, rapaz que trabalhava com ele meio expediente, aliviando nos horários de pico e nos finais de semana. E com Tomer veio a calma que permitiu Gili ir almoçar e tomar um café.
Próximo do fim do dia, quando Gili já estava se preparando para ir para casa, uma mensagem no seu telefone pisca.
Oi, tudo bem? Meu nome é Ayelet. Moshe me deu teu telefone. Eu prometi que ia mandar uma mensagem para você. Você está livre amanhã? Sete e meia, pode ser?
Gili ficou olhando para o telefone largado em cima do balcão enquanto embalava um isqueiro, um pacote de tabaco e seda para enrolar cigarro dentro de uma sacola plástica. Não largou o olho do aparelho enquanto pegava o dinheiro do cliente e lhe dava a sacola com seus apetrechos. Só parou de olhar quando a tela se apagou sozinha. Assim, era como se a mensagem nunca tivesse sido mandada, e ele não precisaria lidar com o seu conteúdo. Pelo menos até abrir o telefone de novo.
Gili organizou suas coisas, pegou sua mochila, botou Muttley numa coleira, buscou seu skate nos fundos do quiosque, despediu-se de Tomer e foi para sua casa. Era fim de tarde e a rua Bograshov ainda estava cheia. O sol, ainda quente, estava próximo a se deitar por detrás do Mediterrâneo. Ele rolava com o skate por entre os transeuntes, sem pressa, para virar logo ali na Shalom Aleichem, onde era seu apartamento. Aproveitou que Muttley parou para cheirar um outro cachorro na esquina e parou junto. Tirou o telefone do bolso e respondeu a mensagem.
Pode ser.
Incluiu o nome de um café-restaurante ali perto e desligou a tela antes de ver se tinha resposta.
Deu um empurrão com o pé e tomou velocidade, no meio da rua de mão única, até chegar onde morava.
No dia seguinte, cedo de manhã, Sussia veio ao quiosque. Fumou seu cigarro, tomou seu café turco, preencheu sua cartela de loto e contou suas intermináveis histórias, sem começo e sem fim. Enquanto isso Gili conferia que Tomer havia fechado o caixa corretamente no dia anterior, tomava seu café (espresso, sem açúcar) e comia o sanduíche de omelete e queijo que fizera em casa.
Sussia não mencionou Ayelet. Gili sentiu, simultaneamente, uma leve irritação, afinal Sussia lhe devia essa pequena atenção, e também um profundo alívio, pois não queria compartilhar com ninguém, menos ainda com Sussia, a mornidão do seu interesse no problema.
Mais ou menos neste espírito passou o dia; entre a negação de que tinha uma certa expectativa, talvez até uma ansiedade, e entre a legítima calma que a certeza de que o encontro não seria nada demais lhe trazia.
Seis e meia largou o quiosque nas mãos de Tomer, levando a mochila, o skate e o Muttley para casa.
Do encontro não esperava nada, ou para ser mais preciso, esperava apenas uma moderada chateação. Mas tomou banho e arrumou-se para o show em que iria tocar com sua banda à noite num lugar ali perto. Calculou que, fosse como fosse, provavelmente não ia ter tempo para se arrumar direito entre sair do encontro com Ayelet e ir para a casa de shows. A guitarra já estaria lá esperando por ele, preparada pelo engenheiro de som.
Saiu de casa, montou no skate e subiu a Bograshov quase até o teatro Habima com potentes patadas no asfalto. Estava adiantado. Sentou-se no restaurante, pediu uma cerveja e esperou Ayelet chegar.
Aos quarenta e dois anos, Ayelet parecia bem mais nova. O pequeno tamanho ajudava a dar essa impressão. Tinha um andar leve e gracioso que não denunciava já ter carregado duas crianças no ventre, e nem que ainda as carregava nas costas de vez em quando.
Não era muito bonita. Já se achou mais feia na vida, mas naquele fim de tarde gostaria de ter tido mais tempo e mais cuidado em se arrumar para sair. A idade lhe deu um pouco mais de carne para seu rosto magro. Seus olhos castanhos hoje não lhe pareciam mais tão pesados, ou tímidos. O que tinha perdido de frescor, ganhou em calma indiferença e um certo atrevimento.
Moshe Sussia estava visitando a sua mãe numa tarde quando ela estava lá buscando as crianças. Puxou assunto; ou melhor, extendeu seu interminável assunto para incluir a situação marital dela.
- Sozinha, Moshe.
- Mas uma moça bonita como você, Ayelet? Não é possível.
- Nem mais tão moça, nem assim de bonita. Me falta tempo, Moshe. Eu não vou investir o pouco que me resta para descanso em encontros com homens que querem uma mãe, e não uma parceira.
- Sabe o que? Eu conheço um rapaz que eu acho que você vai gostar.
E Ayelet só aceitou anotar o telefone para evitar uma desfeita com o velho Moshe e, mais importante, para poder mudar de assunto. E como sabia que Moshe ia cobrar de sua mãe e sua mãe ia cobrar dela, mandou uma mensagem logo no dia seguinte para se livrar do assunto.
Na tarde em que ia encontrar Gili, desceu do ônibus sentindo uma vaga curiosidade. Uma ligeira paz de quem não tinha expectativa nenhuma. Sem expectativas, não esperava qualquer decepção. Não é que tivesse saido de cassa empurrada, ou que tivesse sido obrigada a ir. Ela racionalizava que baixas expectativas significava, também, que poderia tirar proveito do que viesse. Fosse como fosse, dar um pulo no centro de Tel-Aviv e comer num bom restaurante não iam ser uma tortura. Ayelet ainda aproveitou que já tinha depositado as crianças com o pai delas para combinar com uma amiga e se encontrar com ela depois da janta. Estava, assim, satisfeita de ter uma noite um pouco diferente.
Encontrou o restaurante e logo a sua companhia. Ele se levantou para cumprimentá-la.
Ele era um gigante e ela deu um quase imperceptível passo para trás. Apresentaram-se. Ele às parecia mais velho do que os trinta e oito anos que disse que tinha. Depois, mudava de expressão e parecia muito mais novo. Manuseava os talheres com insuspeita delicadeza para braços tão maciços. Era gentil, paciente, seco e silencioso. Quase não falava.
Sentiu-se ansiosa e um pouco culpada de não conseguir sentir nenhuma atração. Nada. O rapaz não era feio, e também não era bonito. Tinha os olhos luminosos, risonhos, mas ele quase não sorria. Seu tamanho a inibia, mas as tatuagens a assustavam. Em um braço havia uma coleção de símbolos hindus, deuses com mais de um par de braços, delicadas teias tribais de várias cores, de alto a baixo, até os dedos. Em um outro braço haviam flores, animais estilizados e várias frases em algum caractere que parecia sânscrito. Gili não a faria olhar duas vezes em qualquer outra circunstância, a não ser pela sua inevitável figura imponente. Ayelet queria se achar uma pessoa mais descolada e sem preconceitos, e daí a ponta de culpa. Não sentia repulsa, mas não conseguia cruzar a barreira da primeira impressão.
Gili achou Ayelet bonita, mas desinteressante. Ela pediu salmão assado e arroz branco. O prato mais sem graça de todo o cardápio. Podia ter escolhido uma salada só de alface e seria provavelmente mais saboroso e certamente teria mais caráter. Gili sentia uma certa relutância, um comedimento sutil vindo dela. Ayelet não o olhava nos olhos e parecia pouco à vontade na sua cadeira. Quase não falava e Gili, naturalmente quieto e reservado, não conseguia puxar assunto. Mas isso não não chegou a fazer ele se sentir incomodado, rejeitado, nem sequer aborrecido. Surfava na onda da segunda cerveja, aproveitava o princípio de noite quente para relaxar, ver as pessoas que entravam e saíam do restaurante. Talvez confessasse, se fosse interrogado, que na verdade não se esforçou terrivelmente para ser o parceiro ideal.
Despediram-se com a falta de cerimônia dos que sabem que nunca mais vão se ver na vida.
Mas estavam errados. Vinte minutos depois a amiga da Ayelet a levou para ouvir uma banda psicodélica tocar num bar da Dizengoff, e a surpresa dela não foi a de ver sua companhia de jantar ali em cima do palco tocando guitarra, mas sin de ver nele um cara completamente diferente. A banda abriu o show tocando Govinda do Kula Shaker. Gili solava na sua guitarra e a fazia soar como uma moça indiana cantando em sânscrito, enquanto o vocalista misturava letras em hebraico do Shalom Hanoch com inglês do Bob Dylan. E a camiseta preta sem marcas, e a calça cheia de metais que Gili usava fizeram sentido. Até as tatuagens dele faziam sentido agora, vindas dos ombros e cruzando o braço todo para descer dos dedos e formar as cordas da guitarra e tocar música. A esfinge que ela não decifrou na mesa do restaurante era agora clara, um rosto aberto e franco, tão envolvido com o som que se criava que parecia ausente, numa expressão de exultação pacífica que ela tinha achado antes que era indiferença. Gili rodopiava e largava cada virada de acorde com um amplo movimento do braço que fazia parecer que a delicadeza com que usava as mãos era só um ensaio para uma agilidade insuspeita num corpanzil como o seu.
Ayelet, pasma, passou o começo do show tentando entender onde estava esse homem meia hora atrás, e decidiu que queria um date com esse cara daí, assim que acabasse o show.
https://medium.com/@gabpac/tocando-govinda-em-hebraico-ae180da87c5a
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2019.07.30 14:35 gabpac Tocando Govinda em Hebraico [A segunda impressão é a que toca]

Esse negócio de primeira impressão não ocupava demais a cabeça de Gili. Era uma daquelas opiniões, daquelas coisas tão à flor da pele que ele preferia ignorar, e nunca levava muito à sério quando conhecia alguém. Era também por isso que ele detestava blind dates.
Vou coisíssima nenhuma!
Não foi, é claro, o que o Gili disse, mas foi o que teve vontade de dizer para o Sussia, que fumava sentado na única mesa do quiosque. Contido, no fim só respondeu:
- Pode ser.
Pois a primeira impressão que Gili passava era intimidante. Tinha trinta e oito anos, um metro e noventa e cento e quarenta quilos. Era quase completamente careca, o resto do cabelo, raspado. Mas tinha olhos azuis calmos, serenos, um rosto agradável, e uma boca sem lábios que davam a sensação de estarem sempre tentando segurar um sorriso irônico. Era o dono de um quiosque na rua Bograshov, em Tel-Aviv, a uma quadra da praia. Ali trabalhava seis vezes por semana já há onze anos. Morava perto, a duas quadras dali, num apartamento de quarto e sala onde guardava suas guitarras e que dividia com seu vira-latas que ia com ele para todo lado. Gili ia deslizando com seu skate long-board pelas ciclovias de Tel-Aviv, e Muttley, arrastando sua língua pendurada no lado da boca, correndo contente ao lado dele.
O Sussia era um velho marrom, curvado, de nariz bulboso numa cara chupada. Aparecia no quiosque todas as manhãs para tomar café turco, fumar um ou dois cigarros, preencher um cartão da loto e contar intermináveis histórias que não tinham nem começo e nem fim.
Teve uma manhã dessas que Sussia veio falando de uma moça. Ela, que já andava cansada de estar solteira, reclamava que os homens de verdade nunca cruzavam com ela pelas vielas da vida. Pois eu sei de um homem de verdade! Sussia disse para a filha da amiga.
- E daí eu dei teu telefone para ela.
Gili não teve nenhuma reação perceptível quando o Sussia disse aquilo. Seguiu repondo o estoque de cigarros com seus enormes braços, cobertos de tatuagem, sem pressa de dizer nada. Só quando terminou de esvaziar seu último caixote é que respondeu à pergunta que nunca foi feita.
- Pode ser.
- É boa moça, Gili. Você já está solteiro há quanto? Dois? Três anos? No meu tempo eu não ficava sozinho nem por uma semana. Nada disso, habibi! Eu saia por Holon, Bat-Yam, às vezes Yaffo e Tel-Aviv. E nem era como é hoje, que, bem... as moças na minha época… Era complicado. Eu não consigo entender como é que você fica assim, sozinho. Cada moça bonita que passa por aqui, todos os dias, o dia inteiro. Vão e vêm da praia. Se eu fosse jovem… É… Bem, a Ayelet é uma moça muito boa. Eu acho que você vai gostar dela. Quem sabe se você se vestisse melhor? Ao invés de usar essas camisetas largas, esse tênis velho, todos os dias. Você não morre de calor? Eu ia morrer de calor com essa calça pesada. Bem, está na minha hora. Melhor eu ir indo.
Sussia se levantou da cadeira de plástico, foi até o caixa levando o copinho cheio de borra de café no fundo e a cartela da loto preenchida para pagar.
- Dez shekalim. - Disse Gili.
Sussia enfiou os dedos magros no bolso da calça frouxa e tirou dali uma moeda. Enquanto fazia isso, disse, equilibrando o cigarro na boca:
- Se ela te mandar uma mensagem, você responda, viu?
- Pode ser.
- Yalla! Tenha um bom dia!
- Você também, Moshe.
Moshe Sussia, antes de ir embora, ainda acendeu o cigarro na frente do quiosque, ao lado do estande de revistas. Gili botou o copo sujo numa pilha debaixo do caixa e seguiu seu trabalho.
Muttley ia com o dono também para o trabalho e, de manhã cedo, ao chegar, se enroscava na calçada, na frente do quiosque. O calorão vinha logo e aí ele se refugiava do lado de dentro, atrás do balcão apertado para aproveitar o ar-condicionado forte.
Ao longo da manhã Gili manteve a cabeça ocupada com o movimento no quiosque. Começava bem cedo de manhã com os habituais do bairro e passava aos poucos a ser ocupado pelos transeuntes acidentais que iam aparecendo mais tarde. Tinha gente que ia a caminho da praia que preferia comprar sua bebida ali; mais barata e mais gelada. Gente que estacionava na esquina e vinha comprar um cigarro, rapidinho. Algum distraído que deixou o leite acabar e precisava de uma caixa com urgência. Crianças comprando picolé, o avô comprando jornal. Apareceu um rapaz nervoso que pediu um espresso e sentou-se ali a ler um jornal para fazer hora e se foi. Uma senhora que morava no edifício acima tinha um molho de chaves reserva guardado com Gili. Ela pareceu ali pedindo as chaves, desculpou-se pela trapalhada, comprou sua revista mensal e voltou a seus afazeres depois de reclamar de novo do calor.
Pouco mais tarde apareceu o Tomer, rapaz que trabalhava com ele meio expediente, aliviando nos horários de pico e nos finais de semana. E com Tomer veio a calma que permitiu Gili ir almoçar e tomar um café.
Próximo do fim do dia, quando Gili já estava se preparando para ir para casa, uma mensagem no seu telefone pisca.
Oi, tudo bem? Meu nome é Ayelet. Moshe me deu teu telefone. Eu prometi que ia mandar uma mensagem para você. Você está livre amanhã? Sete e meia, pode ser?
Gili ficou olhando para o telefone largado em cima do balcão enquanto embalava um isqueiro, um pacote de tabaco e seda para enrolar cigarro dentro de uma sacola plástica. Não largou o olho do aparelho enquanto pegava o dinheiro do cliente e lhe dava a sacola com seus apetrechos. Só parou de olhar quando a tela se apagou sozinha. Assim, era como se a mensagem nunca tivesse sido mandada, e ele não precisaria lidar com o seu conteúdo. Pelo menos até abrir o telefone de novo.
Gili organizou suas coisas, pegou sua mochila, botou Muttley numa coleira, buscou seu skate nos fundos do quiosque, despediu-se de Tomer e foi para sua casa. Era fim de tarde e a rua Bograshov ainda estava cheia. O sol, ainda quente, estava próximo a se deitar por detrás do Mediterrâneo. Ele rolava com o skate por entre os transeuntes, sem pressa, para virar logo ali na Shalom Aleichem, onde era seu apartamento. Aproveitou que Muttley parou para cheirar um outro cachorro na esquina e parou junto. Tirou o telefone do bolso e respondeu a mensagem.
Pode ser.
Incluiu o nome de um café-restaurante ali perto e desligou a tela antes de ver se tinha resposta.
Deu um empurrão com o pé e tomou velocidade, no meio da rua de mão única, até chegar onde morava.
No dia seguinte, cedo de manhã, Sussia veio ao quiosque. Fumou seu cigarro, tomou seu café turco, preencheu sua cartela de loto e contou suas intermináveis histórias, sem começo e sem fim. Enquanto isso Gili conferia que Tomer havia fechado o caixa corretamente no dia anterior, tomava seu café (espresso, sem açúcar) e comia o sanduíche de omelete e queijo que fizera em casa.
Sussia não mencionou Ayelet. Gili sentiu, simultaneamente, uma leve irritação, afinal Sussia lhe devia essa pequena atenção, e também um profundo alívio, pois não queria compartilhar com ninguém, menos ainda com Sussia, a mornidão do seu interesse no problema.
Mais ou menos neste espírito passou o dia; entre a negação de que tinha uma certa expectativa, talvez até uma ansiedade, e entre a legítima calma que a certeza de que o encontro não seria nada demais lhe trazia.
Seis e meia largou o quiosque nas mãos de Tomer, levando a mochila, o skate e o Muttley para casa.
Do encontro não esperava nada, ou para ser mais preciso, esperava apenas uma moderada chateação. Mas tomou banho e arrumou-se para o show em que iria tocar com sua banda à noite num lugar ali perto. Calculou que, fosse como fosse, provavelmente não ia ter tempo para se arrumar direito entre sair do encontro com Ayelet e ir para a casa de shows. A guitarra já estaria lá esperando por ele, preparada pelo engenheiro de som.
Saiu de casa, montou no skate e subiu a Bograshov quase até o teatro Habima com potentes patadas no asfalto. Estava adiantado. Sentou-se no restaurante, pediu uma cerveja e esperou Ayelet chegar.
Aos quarenta e dois anos, Ayelet parecia bem mais nova. O pequeno tamanho ajudava a dar essa impressão. Tinha um andar leve e gracioso que não denunciava já ter carregado duas crianças no ventre, e nem que ainda as carregava nas costas de vez em quando.
Não era muito bonita. Já se achou mais feia na vida, mas naquele fim de tarde gostaria de ter tido mais tempo e mais cuidado em se arrumar para sair. A idade lhe deu um pouco mais de carne para seu rosto magro. Seus olhos castanhos hoje não lhe pareciam mais tão pesados, ou tímidos. O que tinha perdido de frescor, ganhou em calma indiferença e um certo atrevimento.
Moshe Sussia estava visitando a sua mãe numa tarde quando ela estava lá buscando as crianças. Puxou assunto; ou melhor, extendeu seu interminável assunto para incluir a situação marital dela.
- Sozinha, Moshe.
- Mas uma moça bonita como você, Ayelet? Não é possível.
- Nem mais tão moça, nem assim de bonita. Me falta tempo, Moshe. Eu não vou investir o pouco que me resta para descanso em encontros com homens que querem uma mãe, e não uma parceira.
- Sabe o que? Eu conheço um rapaz que eu acho que você vai gostar.
E Ayelet só aceitou anotar o telefone para evitar uma desfeita com o velho Moshe e, mais importante, para poder mudar de assunto. E como sabia que Moshe ia cobrar de sua mãe e sua mãe ia cobrar dela, mandou uma mensagem logo no dia seguinte para se livrar do assunto.
Na tarde em que ia encontrar Gili, desceu do ônibus sentindo uma vaga curiosidade. Uma ligeira paz de quem não tinha expectativa nenhuma. Sem expectativas, não esperava qualquer decepção. Não é que tivesse saido de cassa empurrada, ou que tivesse sido obrigada a ir. Ela racionalizava que baixas expectativas significava, também, que poderia tirar proveito do que viesse. Fosse como fosse, dar um pulo no centro de Tel-Aviv e comer num bom restaurante não iam ser uma tortura. Ayelet ainda aproveitou que já tinha depositado as crianças com o pai delas para combinar com uma amiga e se encontrar com ela depois da janta. Estava, assim, satisfeita de ter uma noite um pouco diferente.
Encontrou o restaurante e logo a sua companhia. Ele se levantou para cumprimentá-la.
Ele era um gigante e ela deu um quase imperceptível passo para trás. Apresentaram-se. Ele às parecia mais velho do que os trinta e oito anos que disse que tinha. Depois, mudava de expressão e parecia muito mais novo. Manuseava os talheres com insuspeita delicadeza para braços tão maciços. Era gentil, paciente, seco e silencioso. Quase não falava.
Sentiu-se ansiosa e um pouco culpada de não conseguir sentir nenhuma atração. Nada. O rapaz não era feio, e também não era bonito. Tinha os olhos luminosos, risonhos, mas ele quase não sorria. Seu tamanho a inibia, mas as tatuagens a assustavam. Em um braço havia uma coleção de símbolos hindus, deuses com mais de um par de braços, delicadas teias tribais de várias cores, de alto a baixo, até os dedos. Em um outro braço haviam flores, animais estilizados e várias frases em algum caractere que parecia sânscrito. Gili não a faria olhar duas vezes em qualquer outra circunstância, a não ser pela sua inevitável figura imponente. Ayelet queria se achar uma pessoa mais descolada e sem preconceitos, e daí a ponta de culpa. Não sentia repulsa, mas não conseguia cruzar a barreira da primeira impressão.
Gili achou Ayelet bonita, mas desinteressante. Ela pediu salmão assado e arroz branco. O prato mais sem graça de todo o cardápio. Podia ter escolhido uma salada só de alface e seria provavelmente mais saboroso e certamente teria mais caráter. Gili sentia uma certa relutância, um comedimento sutil vindo dela. Ayelet não o olhava nos olhos e parecia pouco à vontade na sua cadeira. Quase não falava e Gili, naturalmente quieto e reservado, não conseguia puxar assunto. Mas isso não não chegou a fazer ele se sentir incomodado, rejeitado, nem sequer aborrecido. Surfava na onda da segunda cerveja, aproveitava o princípio de noite quente para relaxar, ver as pessoas que entravam e saíam do restaurante. Talvez confessasse, se fosse interrogado, que na verdade não se esforçou terrivelmente para ser o parceiro ideal.
Despediram-se com a falta de cerimônia dos que sabem que nunca mais vão se ver na vida.
Mas estavam errados. Vinte minutos depois a amiga da Ayelet a levou para ouvir uma banda psicodélica tocar num bar da Dizengoff, e a surpresa dela não foi a de ver sua companhia de jantar ali em cima do palco tocando guitarra, mas sin de ver nele um cara completamente diferente. A banda abriu o show tocando Govinda do Kula Shaker. Gili solava na sua guitarra e a fazia soar como uma moça indiana cantando em sânscrito, enquanto o vocalista misturava letras em hebraico do Shalom Hanoch com inglês do Bob Dylan. E a camiseta preta sem marcas, e a calça cheia de metais que Gili usava fizeram sentido. Até as tatuagens dele faziam sentido agora, vindas dos ombros e cruzando o braço todo para descer dos dedos e formar as cordas da guitarra e tocar música. A esfinge que ela não decifrou na mesa do restaurante era agora clara, um rosto aberto e franco, tão envolvido com o som que se criava que parecia ausente, numa expressão de exultação pacífica que ela tinha achado antes que era indiferença. Gili rodopiava e largava cada virada de acorde com um amplo movimento do braço que fazia parecer que a delicadeza com que usava as mãos era só um ensaio para uma agilidade insuspeita num corpanzil como o seu.
Ayelet, pasma, passou o começo do show tentando entender onde estava esse homem meia hora atrás, e decidiu que queria um date com esse cara daí, assim que acabasse o show.
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